domingo, 14 de dezembro de 2014

A Base


       O silêncio falava tão alto que eu mal podia ouvir sua voz. Não que fosse uma barreira para o meu amor, mas para você acabaria sendo o muro do qual não serias capaz de transpor, tamanha sua preguiça. Sequer de cogitar sentir estar do outro lado fostes capaz.
-          O que posso fazer se vim com isto, com essa verdade que não consigo mudar?
-          Você só pode ser isto? Sabe quero mais de você. E só não é melhor porque não quer!
-          Não é uma questão de desejar - eu faria qualquer coisa que lhe trouxesse um sorriso, não se passa por cima da essência sem ferir-se. Experimentando a dor que se aprende.
       Para alguns a vida é uma dádiva, a percebem como um incrível material de desenvolvimento; para outros, habitantes em seus próprios gêneses pesadelos, não passa de um fardo. Amiúde alheios a consciência, dizem não merecer tais percalços assolados. Então, qual seria o ponto chave na subsistência?
-          O que é amar pra você?
      De repente, notei que a pergunta tinha um proposito próprio. Logo em seguida senti que na resposta existiria alguma evidencia, algo que não se sabe do outro, mas que por meio da convivência é possível assimilar, de que nada haveria de ser como eu imaginei que houvesse sido ou que estivesse sendo, e neste momento eu já pressentia o descontentamento pelo que eu ouviria:
-          Amar... É ser companheiro, é querer e estar junto – E pra você o que é amar?
Errado. E pior; esquivar, fugir.
-          Amar é reconhecer.
-          É reconhecer... Sei.
Reconhecer o outro, saber quem realmente é a pessoa que está com você, e desejar conviver para sempre com o que ela é, afinal, não se pode não ser . Não sem correr o risco de tornar-se justamente o que não é. E sobretudo, com os defeitos que ela possui.
       O que dá sentido à vida, o combustível, a esperança; o que? Não existe nada dentro de nós que seja mais essencial provar do que o amor - fora dele não há como sobreviver por muito tempo - em fartas doses diárias de desejo. Infinitamente.
       Pus em suas mãos a mim mesmo. Subi todos degraus para dignificar-me. Ousei dizer, pensar, crer. E agora você me vem com o esteio do desprezo... De onde surgiu o ódio nessa personalidade hipócrita e traidora? Me pergunto.
      Alguém que dizia amar! Alguém que - só dizia, mesmo... Só dizia o que queria. Só queria o que não lhe cabia e, com isso, deve ter se achado no direto de tangenciar-se, transgredindo, se afogando em sua própria razão material. Talvez fosse melhor assim. Eu deveria aceitar. Mas enquanto isso era eu quem assistia sua inconsciência, me punindo por não conseguir lhe abrir os olhos para o desperdício de vida, enquanto você via libertação ao deixar vazar sua gasolina pelo caminho que eu logo percorreria. Assim, em seus atos insanos menos que insensíveis, menos que humanos, menos que terrenos e piores que os demoníacos, você sacou o isqueiro enquanto eu esperava que riscasse o palito. Como você engana bem... Atuava tão perfeitamente que eu chegava a duvidar de minha própria sanidade. Eu estaria dramaticamente louco ou realmente era você ali, assistindo meu corpo queimar com a mesma indiferença que a minha quando diante de tuas necessidades frívolas? Este é o dom de se fazer por prazer: a tudo torna excelente. Até mesmo a morte das coisas mais puras passa a ser admirável. Sadicamente notório. Tanto quanto era previsível minha lamuria por tais agressões psicossomáticas.
      Antes, quando o peso caia sobre mim, eu olhava para o lado e te encontrava observando a si mesmo no espelho, enquanto eu, e isso você não percebia, estudava minimamente sua incapacidade de ver-se além do espectro. Eu ficava ali, avaliando o qualitativo material em sua essência relativista. Era meu conforto, sabia que havia esperança, imaginar que você poderia também estar assimilando implicações do seu próprio comportamento, relacionando fatores circunstanciais à teorias antropológicas sobre contemporaneidades. Eu estava sonhando com o impossível porque isto, dentre poucas coisas, me era acessível. Ousava possuir uma consciência universal. Tolo que sempre havia sido - Não pensava na possibilidade transitiva.
      Facilmente entende-se a dor como uma resposta a algo invasivo, mas pensando em como o silêncio pode ser implacável, qual a parte sensível em nós que é atacada por ele? O silêncio da ira é fatal. Como a falta de personificação do fictício papel com o qual me enganou, embora não tão bem quanto eu preferia ser enganado.
      A mim, que nunca estive tão certo, nunca tão fraco, você apontou essa arma carregada de explosivas palavras no escuro. Atirou de olhos abertos! Quanto sadismo existe dentro de um perverso ser? Humano maquiado. De charme a apologias, armamento pesado para grandes estragos. Mas em alvos tão pequenos... Porque? Porque, porra?!
      Você dizia pouco e não notei, enquanto provavelmente sonhava, a montagem do palco; eu como coadjuvante, pouco antes da grandiosa salva do público à despretensiosa ingenuidade na interpretação de mim mesmo por mim mesmo; morto por dentro, como você me deixou.
        Despertei tremulo, esgotado, porém e infelizmente vivo, sentindo os olhares emocionados da plateia. Escondi meu rosto pálido, permiti as lagrimas, perdi o sentido, tentando entender como o mundo se avessava e minha vida se resumira àquela cena grotesca de drama clássico. “Eles vêem o que querem ver, seu papel é apenas lhes doar tudo de si até que nada sobre de você.” - disse alguém no fundo do palco antes de minha síncope.
       Gostaria de não saber que meu desvio racional é maior que a capacidade da maioria em assimilar, e eu sei, estou sempre a um passo de executa-lo, embora consciente de que para isto eu pagaria uma soma que pesa mais do que o “existir por existir”. Para todos os fins, minha realidade se mantém inimaginável, dado que influenciando o ato derradeiro do qual só ainda não me permito por não haver certeza sobre sua funcionalidade, põe em risco a estabilidade primitiva de uma sociedade dedicada cegamente ao ganho sobre perdas.
      Porque eu deveria merecer o fardo de carregar toda a dor que existe? Perguntava-me... quantas razões improváveis. O que sempre me faltou foi disposição para enfrentar as consequências da renúncia, da transição, da febre, do meio. Do meu coração.
      Não chega a ser um consolo, entretanto há algo de bom nisso tudo - mais correto seria calar a confessa-lo - e o mais curioso dessa confusa alusão barroca: ainda pensar em você todas as noites. Como uma espécie de esperança inconsciente de estarmos juntos novamente em breve, desejando seu bem, pedindo a Deus por sua felicidade.

Jogue fora sua carcaça e se junte a mim, dispa-se da matéria e torne-se humanamente a essência em que a limitada consciência sobre nós habita.
Não resuma esta chance numa escolha, preencha o espaço com atitudes vitais e invista no potencial dos sentimentos. Encontrarás uma ou duas novidades, mas nenhuma se compara ao redescobrimento da sabedoria.


Continuará...

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